Enquanto juntamos retalhinhos...ouvimos doces melodias...

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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Uma parte de mim
Uma parte de mim está onde tu estás, é a brisa que te cumprimenta quando sais pela manha, essa brisa que te sopra devagar e faz mais leves e mais livres os teus passos.
Uma parte de mim é a luz paciente do sorriso que ofereces aos que sofrem, aos que esperam, mas sobretudo aos que interrogam, aos que nunca desistem de procurar, àqueles que não disfarçam a fome de saber.
Uma parte de mim é o decidido caminho que tomas quando tens de escolher entre vários, e a tua intuição é, nesse momento, talvez a coisa mais importante que há no mundo.
Uma parte de mim é o teu profundo olhar sobre o pequeno mapa da grandeza humana, a mais rápida forma de medir a distância das estrelas no limitado universo de cada um de nós.
Uma parte de mim é a tua sombra, essa estreitíssima sombra que voa nas asas jovens do arroz, onde o desejo continua a escrever doridas cartas de amor para uma alma líquida que flutua, ferida, sobre as tuas colinas interiores.
Uma parte de mim é o lobo que roçaga as tuas pernas, que te acompanha e te protege, mas que não vês, não sentes, não sabes, e não tens consciência sequer de o ignorar.
Uma parte de mim é uma parte de ti, uma sede longínqua, longa, repleta do que a cada um de nós apetece, do que cada um de nós necessita, do que a cada um de nós pertence, essa sede que faz mais justos os teus gestos e mais demorados os teus beijos.
Uma parte de mim acorda quando tu partes e deita-se quando tu chegas, é o anjo que tem o sorriso franco dos mais pobres e a alegria dos sinos que acordam as raízes da infância.
Uma parte de mim é a canção que tu cantas nas longas caminhadas junto ao mar, a erva indefesa que tu pisas, a dor que sentes por ter acordado uma vez mais num tempo injusto, o pensamento branco que diriges até Deus.
Uma parte de mim é tudo o que rejeitas, tudo o que te fere, tudo o que te queima, tudo o que te é insuportável. Tudo o que ainda não é capaz de merecer-te.

Joaquim Pessoa,

*
in O Poeta Enamorado

terça-feira, 7 de julho de 2015

Olha para mim.
Quero muito beijar esses teus olhos
para agradecer à vida a luz
do teu olhar.


Joaquim Pessoa
in O Poeta Enamorado

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Abraça-me
Abraça-me.
Quero ouvir o vento que vem da tua pele
e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.
Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser
este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida
na palidez de todos os caminhos,
e que ambos mordemos para provar o sabor
que tem a carne incandescente das estrelas.
Abraça-me.
Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar
o sentido dos sentidos, o sentido da vida.
Procura-me com os teus antigos braços de criança
para desamarrar em mim a eternidade,
essa soma formidável de todos os momentos livres
que a um e a outro pertenceram.
Abraça-me.
Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.
Dá-me a beber antes a água dos teus beijos
para que possa levá-la comigo
e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,
o mais intenso amor do universo,
e eu quero que dele fiquem a saber
até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me.
Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.

Joaquim Pessoa


*
in O Poeta Enamorado

sábado, 20 de junho de 2015


O Amor é...

O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prémio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. É a pele de um sorriso.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sexta-feira, 19 de junho de 2015


Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DEIXAR NAS TUAS MÃOS
Deixar nas tuas mãos tudo o que eu amo
nadar no lago verde dos teus olhos
em teu corpo saber como eu me chamo
queimar manhãs de incenso ou de petróleos
chamar por ti uivar como se um lobo
devorasse corças brancas no meu peito
e o coração inteiro fosse pouco
para amar ou morrer de qualquer jeito
saber que esse punhal que o vento ergue
acima do esplendor da amendoeira
é apenas o tempo que se perde
ao acender de dia uma fogueira
e naufragar em ti como se eu fosse
um mastro habituado a correr mundo
e no mar do teu ventre inquieto e doce
mergulhar esta noite até ao fundo.


Joaquim Pessoa
in
O POETA ENAMORADO (Os Poemas de Amor)
Boa noite.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Se ao menos soubesses
tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses
as mãos como quem beija
e não partisses, assim,
empurrando o vento
com o coração aflito,
sufocado de segredos
se ao menos tivesses levado
as minhas mãos para
tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo
se ao menos tivesses
quebrado o riso frio
dos espelhos onde o teu rosto
se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra
a tua despedida,
talvez que,
hoje, meu amor,
eu pudesse esquecer
essa cor perdida
nos teus olhos.
- Joaquim Pessoa

sábado, 20 de dezembro de 2014

Amar-te, é escrever-te.

Amar-te é deixar

que me toques até ser teu,

até que te deites

no meu corpo

e adormeças inteira

dentro de mim.

Peço-te.

Não pises as violetas

que trago no olhar.

Cheiram a ti.

São para ti.

Um "bouquet" de palavras

que floriram neste tempo de amor.

 

  (Joaquim Pessoa)

domingo, 14 de dezembro de 2014

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Joaquim Pessoa